Sessão Assíncrona

23/03/2021 - 09:00 - 18:00
SA15 - Eixo 1 - Ações e Planejamento dos Cuidados à Saúde 1 (TODOS OS DIAS)

35299 - ESTADO, SOCIEDADE E ASSISTÊNCIA NA BOCA DO SERTÃO PAULISTA: BOTUCATU, SÃO PAULO – 1918 A 1945
ANNA CRISTINA RODOPIANO DE CARVALHO RIBEIRO - FSP-USP, MARIA CRISTINA DA COSTA MARQUES - FSP-USP, ANDRÉ MOTA - FM-USP


Resumo
O presente projeto debruça-se sobre a oferta assistencial em Botucatu – interior paulista -, entre os anos de 1918 e 1945, tomando como pontos de inflexão a epidemia de Gripe Espanhola, o término do Estado Novo e o fim da Segunda Grande Guerra, em contexto sócio-histórico marcado pela eugenia, por ebulições políticas, pela ascensão de regimes totalitários e pelo conflito mundial. Busca-se compreender os contornos da assistência local no pulsar das forças operantes na cidade (Igreja Católica, Maçonaria e Partidos Políticos) em suas peculiaridades, contradições e tensionamentos frente às distintas corporalidades, abarcando as dimensões da raça, gênero e infância para análise desta prática social. Pretende-se assim revelar movimentos de ruptura e permanência nas práticas sanitárias e no campo médico-filantrópico-caritativo paulista, e apreender a saúde como território de utilidade e valor e objeto de lutas e disputas ao longo do tempo.

Introdução
O alvorecer do século XX, no Brasil, foi marcado pelas discussões e uso de dispositivos médicos e sanitários não só em tentativas para erradicar doenças, mas como ideário das elites sobre o futuro da nação e a formação do povo brasileiro. Neste cenário, entre os anos de 1910 e 1920, a questão nacional agitou encontros intelectuais e debates em torno da ideia de povo e de nação e da construção de um país rico e racialmente próspero, criando terreno profícuo ao ideário e prática eugênicos nas décadas subsequentes. Em São Paulo, o domínio do “paulistanismo” frente ao cenário político central foi reforçado pelo discurso científico que apontara a excepcionalidade sanitária paulista e alçara o estado como o único capaz de empreender um projeto civilizador e progressista em território nacional. Nesta perspectiva, Botucatu – cidade interiorana - foi escolhida para esta pesquisa dado seu passado oligárquico e projeção regional na Primeira República, sua intensa participação na eclosão dos movimentos políticos de 1922 e 1932, e por ter sediado ações do Partido Integralista, tornando-a instigante para o estudo dos ideários e das práticas assistenciais no interior paulista, no entre guerras.



Objetivos
Sob a lente da História local, o trabalho visa compreender a assistência em Botucatu, no entre guerras, seu embricamento com as forças sociais operantes na cidade (Maçonaria, Igreja Católica e Partidos Políticos, em seus ideários, discursos e representações), com a agenda sanitária paulista e com a oferta assistencial às diferentes corporalidades, em um contexto sócio-histórico regido pela eugenia, pelas ebulições políticas e pela ascensão de regimes totalitários.

Metodologia
Adota-se teórica e metodologicamente a História Social, onde inscrevem-se os historiadores Edward P. Thompson e Michel de Certeau. Recorre-se ainda à bibliografia que privilegia interfaces entre História, Saúde Pública e Medicina com especial destaque à experiência paulista, assim como, às contribuições dos campos da história urbana e da história das doenças. Para entender representações, estratégias e lugares do poder e do querer que denotem singularidades à assistencial local no período estudado, a investigação recorrerá a documentos históricos de diversas origens – jornalísticos, oficiais, religiosos, acadêmicos e literários –, tanto iconográficos, quanto escritos. A análise será norteada pela lógica histórica que ocorre na relação tensa e dinâmica entre hipóteses, pesquisa empírica, questionamentos e respostas, de maneira a se alcançar a produção do conhecimento histórico.

Resultados e Discussão
A documentação tem apontado as dimensões política e social da assistência, da profissionalização da atenção ao doente, à criança, ao idoso e à parturiente cotejando as averbações das instituições (algumas ainda existentes – ou sobreviventes - nos dias atuais) com as transformações no exercício da medicina e a reorganização dos serviços de saúde pública. Contudo, se os apontamentos decorrentes da pesquisa histórica propiciam linha de investigação original, silenciamentos também emergiram e corroboram para o aprofundamento da investigação. Ao conferir ao corpo e ao sofrimento lugares na História, foi possível perceber o silenciamento da raça na historiografia de epidemias e da assistência no país, com destaque à experiência paulista, pelo estado ter se lançado à época celeiro do discurso eugênico. Em Botucatu, o apagamento da população negra revela-se na raridade de vestígios históricos encontrados sobre esta população nas primeiras décadas do século XX, sendo a alusão à cor negra ou parda recorrentemente associada à desqualificação moral - feitiçaria, ócio, crime, vício, suspeição, promiscuidade – esta última com menção destacada às mulheres negras -em jornais da época.

Conclusões / Considerações finais
Se a corporeidade é relacional com o contexto sócio-histórico vivido, torna-se fundamental trazer à bailaem estudos os impactos da raça e da eugenia sobre os contornos assistenciais, em contexto sócio-histórico onde, aliada ao higienismo e ao sanitarismo, a eugenia ganhou força e fincou seu discurso nas estruturas autoritárias do poder republicano. Sendo assim, a presente investigação tem se disposto a contribuir com a necessária busca pelo contingente e pela radicalidade do argumento histórico nas análises do campo da saúde coletiva, ao evidenciar diferenças, sistemas interpretativos e nexos causais, considerando as especificidades regionais sobre as representações e expectativas sobre a ordem da cidade e a saúde do corpo em diferentes localidades, evitando desta forma, vícios funcionalistas e enunciados totalizantes que enxergam na saúde valor idêntico e com vida autônoma dentro de qualquer sociedade, sem relativizar como se dá tal percepção em diferentes cenários socio-históricos.

Referências
Certeau M. A invenção do Cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes; 2014
Farge A. Lugares para a história. Belo Horizonte: Autêntica Editora; 2011
Marques MCC et al. A importância da perspectiva histórica para o pensamento social em saúde: a contribuição de Madel Luz e Emerson Merhy. Hist. cienc. saude-Manguinhos, Rio de Janeiro , v. 25, n. 2, p. 353-369, jun.2018
Mota A. Quem é bom já nasce feito: sanitarismo e eugenia no Brasil. Rio de Janeiro: DP&A; 2003
Lima NVT, Carvalho MAR. O argumento histórico nas análises de saúde coletiva. In: Fleury S, editora. Saúde coletiva? Rio de Janeiro: Relume Dumará; 1992
Ribeiro ACRC, Marques MCC, Mota A. A gripe espanhola pela lente da história local: arquivos, memória e mitos de origem em Botucatu, SP, Brasil, 1918. Interface (Botucatu), Botucatu , v. 24, 2020
Thompson EP. A economia moral revisitada. In: Thompson EP. Costumes, em comum. São Paulo: Companhia das Letras; 2005

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