Sessão Assíncrona

23/03/2021 - 09:00 - 18:00
SA66 - Eixo 8 - GESTÃO DO CUIDADO E DESIGUALDADES NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE (TODOS OS DIAS)

35252 - AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE E O CUIDADO SITUADO DO USUÁRIO DE CRACK EM SALVADOR, BA
FÁTIMA REGINA GOMES TAVARES - UFBA, TALITA NUNES COSTA - UFBA


Resumo
Este trabalho busca compreender as práticas de cuidado de Agentes Comunitários de Saúde (ACS) para homens adultos que consomem crack a partir de uma abordagem etnográfica. A pesquisa foi realizada entre junho de 2015 e setembro de 2016, em uma unidade de Estratégia de Saúde da Família em Salvador/BA. A abordagem do ACS dirigida a este público associa diferentes formas de aproximação, sendo que sua particularidade consiste na intensificação de características observadas na atenção dirigida para os homens em geral (não consumidores desta droga): são estratégias ancoradas na sabedoria prática do ACS, advindas de sua estreita relação com os sujeitos neste território. O estudo evidenciou que o ACS oferece um cuidado situado, diferenciando-se dos pressupostos e ações de cuidado segundo o paradigma da Redução de Danos, que apresenta limitações para o contexto empírico desse profissional. Contrastar o agenciamento do cuidado operado por agentes comunitários à ótica da Redução de Danos indica serem modos distintos e complementares de garantir a atenção em saúde.

Introdução
Uma etnografia realizada em uma ESF soteropolitana sobre o cuidado oferecido por ACS para homens adultos que usam crack sugere que a abordagem direta, indireta e a evitação são modalidades de relação acionadas por ACS para zelar por si e seus familiares e garantir o “cuidado-do-usuário-de-crack-no-seu-entorno”. A abordagem do usuário não destoa do cuidado voltado aos demais homens do bairro, mas imprime uma agudização do cuidado, se comparado àqueles que não consomem essa substância psicoativa (SPA). Essas estratégias refletem orientações mais amplas da ESF e o cuidado no território apoiado na percepção-ação do ACS; e se diferenciam de pressupostos e práticas da Redução de Danos (RD) previstos na Rede de Atenção Psicossocial para usuários de SPA na Atenção Básica. Contrastar a sabedoria prática do ACS e a RD revela dissonâncias entre ambas; e os limites das premissas e ações da RD face aos impasses enfrentados por ACS. Essas distintas formas de cuidado são complementares e essenciais para garantir o cuidado integral e qualificado; e devem ser entendidas com base na indissociação entre práxis, referenciais teóricos e contextos de atuação dos respectivos profissionais.

Objetivos
O objetivo deste trabalho é compreender, segundo uma perspectiva etnográfica, as práticas de cuidado cotidianas oferecidas por agentes comunitários de saúde para moradores do bairro adultos do sexo masculino que consomem crack (associado ou não a outras drogas), considerando os resultados de uma pesquisa realizada na capital baiana, entre junho de 2015 e setembro de 2016, nas dependências de uma ESF e em suas microáreas.

Metodologia
A pesquisa etnográfica foi realizada entre junho de 2015 e setembro de 2016 em uma unidade da Estratégia de Saúde da Família e seu território de abrangência, em Salvador/BA, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB) e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem da UFBA (CEPEE-UFBA); e subsidiou a elaboração de uma dissertação de mestrado sobre a atenção em saúde oferecida por ACS para moradores do bairro do sexo masculino, adultos, consumidores de crack (associado ou não a outras drogas). A coleta de informações foi realizada por meio de observação participante registrada em diário de campo e entrevistas qualitativas semiestruturadas com ACS e enfermeiros. Os consumidores de crack não foram entrevistados apesar das solicitações feitas aos ACS, tratando essa recusa como uma medida de segurança. A análise correspondeu à elaboração de categorias empíricas, a partir do teor dos depoimentos dos profissionais de saúde.

Resultados e Discussão
O ACS utiliza tecnologias de cuidado distintas ao lidar com homens que traficam e/ou usam crack e os demais homens do bairro. As estratégias buscam garantir o “cuidado-do-usuário-de-crack-no-seu-entorno” e o auto-cuidado físico e emocional do ACS e seus familiares. Elas resultam de condições e alternativas propostas por esses homens em meio ao uso e/ou tráfico de SPA e aludem às ambiguidades do cuidado. A abordagem direta, indireta e a evitação remetem à noção de “cuidado situado”, centrado na situação; e refletem a assistência baseada na relação sujeito-território e na sabedoria prática do ACS. O estigma associado à pessoa que usa SPA ilícitas, sobretudo crack, apenas acentua a resistência masculina observada em buscar e/ou aderir ao serviço de saúde. A motivação do usuário em buscar a ESF não o particulariza, pois esses homens recorriam à unidade de saúde em busca de assistência pontual, breve e sem relação direta com o uso de crack. O cuidado do usuário de crack e/ou traficante na ESF possui especificidades, mas não o distinguem de outros homens do bairro. O que o singulariza é a agudização de aspectos comuns à assistência de homens que não usam e/ou não comercializam essa SPA.

Conclusões / Considerações finais
O cuidado situado oferecido por ACS para homens adultos usuários de crack e/ou traficantes no âmbito da ESF é multideterminado, ambíguo, marcado por dilemas da prática cotidiana e envolve desafios não previstos nas orientações “oficiais” da Estratégia. As redes intersticiais de cuidado que configuram a dinâmica da atuação do ACS implicam estratégias atreladas a situações vividas como riscos por esse profissional. As “investidas” diretas, indiretas e a evitação são modalidades de vínculo que refletem orientações mais amplas da ESF e contrastam com o aporte teórico-técnico da RD, o qual revela limitações no contexto empírico do ACS. Esses paradigmas apontam para a complexidade da relação entre saúde, cultura e sociedade que intervém nas formas plurais do cuidado. Não buscamos apontar um deles como métrica para julgar o outro, mas valorizar suas contribuições distintas para garantir o cuidado qualificado; e considerá-los em seus respectivos referenciais teóricos e contextos de atuação.

Referências
AYRES, JRCM (2004) O cuidado, os modos de ser (do) humano e as práticas de saúde. Saúde e Sociedade, 13(3), 16-29.
BONET, O et al. (2009) Situação-centrada, rede e itinerário terapêutico: o trabalho dos mediadores. In: PINHEIRO, R.; MARTINS, PH (Orgs.). Avaliação em saúde na perspectiva do usuário: abordagem multicêntrica. Recife/PE: CEPESC-IMS/UERJ: Editora UFPE: ABRASCO, p. 241-250.
BONET, O. (2014) Itinerações e malhas para pensar os itinerários de cuidado. A propósito de Tim Ingold. Sociologia & Antropologia, 4 (2), 327-350.
BRASIL. MS. Portaria GM nº 3088, de 23 de dezembro de 2011. Institui
a rede de atenção psicossocial para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com
necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas. Diário Oficial da União, Brasília, 2011.
TAVARES, F; CAROSO, C; SANTANA, C. (2015) Mediações do cuidado no âmbito do Programa Saúde da Família em Itaparica, Brasil. Etnográfica, 9 (3), 489-513.

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