Sessão Assíncrona

23/03/2021 - 09:00 - 18:00
SA66 - Eixo 8 - GESTÃO DO CUIDADO E DESIGUALDADES NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE (TODOS OS DIAS)

35147 - A DIMENSÃO DO CUIDADO PELAS EQUIPES DE CONSULTÓRIO NA RUA: DESAFIOS DA CLÍNICA EM DEFESA DA VIDA
ELYNE ENGSTROM - ENSP/FIOCRUZ, MIRNA BARROS TEIXEIRA - ENSP/FIOCRUZ, ALDA LACERDA - EPSJV/FIOCRUZ, PILAR BELMONTE - EPSJV/FIOCRUZ


Resumo
Objetivou-se analisar a produção de cuidados primários à saúde à população em situação de rua (PSR), prestados por equipes de Consultório na Rua (eCR) em uma cidade brasileira. Estudo de caso, abordagem qualitativa, com sete equipes no ano 2016/2017, com observação direta do trabalho e realização de entrevistas semiestruturadas com profissionais de várias categorias (n=34), com análise qualitativa. Observou-se que as eCR atuavam com escopo ampliado e integral de ações, cuidados clínicos e intersetoriais, nas ruas e nos serviços, em trabalho integrado. Organizavam-se com flexibilidade, baixa exigência, busca ativa nos territórios, itinerante, no tempo oportuno, construção de planos terapêuticos compartilhados, que promoviam autonomia, baseados na redução de danos. Dificuldades eram inerentes às vulnerabilidades e complexidades dos casos, à fragmentação da rede de atenção, à qualidade dos instrumentos para registro em saúde e à carência de recursos estruturais. O cuidado se sustentava em dimensão ético-política, na solidariedade e na defesa da vida

Introdução
A PSR é um fenômeno crescente, elevada morbimortalidade e vulnerabilidade e, como tal, necessita de estratégias de cuidado diferenciado e políticas públicas que reduzam as iniquidades. As equipes de consultório na Rua (eCR) foram criadas para o cuidado à PSR, com dimensão clínica, como o acolhimento, a escuta atenta, o respeito pelas histórias de vida, de modo a fortalecer a autonomia e aliviar ou minimizar o sofrimento, como previsto para.1,2 A complexidade deste cuidado sugere a adoção de modelos centrados em uma visão ampliada de cuidado, nas singularidades das pessoas, suas necessidades e contextos de vida, o que implicaria a construção de Projetos Terapêuticos Singulares (PTS) compartilhados e flexíveis.3 Algumas experiências locais sobre o trabalho cotidiano das equipes têm sido objeto de estudos.4,5 Aprofundando tais abordagens, o estudo objetivou analisar a produção do cuidado à PSR pelas eCR em uma grande metrópole brasileira, identificando suas estratégias, potencialidades e dificuldades. O cenário do estudo foi o Município do Rio de Janeiro (MRJ), que, em 2016, tinha a estimativa de 14.279 pessoas vivendo em situação de rua e sete eCR implementadas

Objetivos
Analisar a produção de cuidados primários à saúde à população em situação de rua, prestados por equipes de Consultório na Rua (eCR) em uma grande metrópole brasileira, o município do Rio de Janeiro

Metodologia
Estudo exploratório de abordagem qualitativa, tipo um estudo de caso21 considerando o universo das sete eCR existentes no MRJ em 2016/2017. Utilizaram-se como técnicas de coletas de dados, a observação direta do cotidiano do trabalho das equipes, a análise de registros do cadastro das equipes e a realização de entrevistas com roteiro semiestruturado. Para a entrevista, foram incluídos 34 profissionais (do universo de 69 profissionais), de modo a garantir a participação de, ao menos, dois profissionais de nível superior (médico, enfermeiro, psicólogo, assistente social, dentista) e um de nível médio (agente social ou técnico de enfermagem) de cada uma das sete equipes. A análise de conteúdo temática permitiu a construção de categorias, considerando as estratégias, potencialidades e dificuldades de atuação das eCR. O estudo atendeu aos preceitos éticos os e foi aprovado pelo CEP/ENSP/ 2015, sob parecer CAAE nº 45742215.6.0000.5240.

Resultados e Discussão
As eCR promoveram acesso ao SUS (e a outros setores), lidando com as necessidades dos usuários, com construção de PTS, desenvolvidos no tempo e local oportunos, tendo em vista o imediatismo que permeia a lógica de vida da PSR. Práticas de cuidado, pautadas em modelos de cuidados primários de saúde, de baixa exigência, criativo, oportuno e integral considerando as necessidades da PSR. Se, por um lado, diversas dificuldades foram evidenciadas no cotidiano das eCR, por outro, também foram observadas estratégias potentes de cuidado na perspectiva de fortalecer a autonomia e ampliar o acesso dos usuários à saúde e aos demais direitos sociais. Reconheceu-se que o cuidado das eCR estava pautado em um modelo, solidário, ancorado em sua essência, em uma dimensão ético-política do cuidado, comprometida, acima de tudo, com a defesa da vida e da cidadania.

Conclusões / Considerações finais
A condição de viver na rua é perversa, fruto das políticas neoliberais que acentuam a pobreza e as desigualdades sociais. Tal condição agrava-se ainda mais com políticas setoriais higienistas e proibitivas, como as ações de recolhimento e de internação compulsória da PSR, que se configuram como um retrocesso aos direitos humanos e a equidade. Refletir sobre as práticas de cuidado das eCR, pautadas em modelos de cuidados primários de saúde, de baixa exigência, criativo, oportuno e integral considerando as necessidades da PSR, pode trazer subsídios para formulação e implementação de políticas públicas de saúde a outras populações vulneráveis.

Referências
1.Ayres JRCM. Sujeito, intersubjetividade e práticas de saúde. Ciênc. Saúde Colet. 2001; 6(1):63-72.
2.Lacerda A, Valla VV. As práticas terapêuticas de cuidado integral à saúde como proposta para aliviar o sofrimento. In: Pinheiro R, Mattos RA, organizadores. Cuidado: as fronteiras da integralidade. SP/RJ: Hucitec/IMS/UERJ/Abrasco; 2004.
3.Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. Manual sobre o cuidado à saúde junto a população em situação de rua. Brasília, DF: MS, 2012
4.Engstrom EM, Cardoso G, Lacerda A, et al. Strategic Analysis of Health Care Practices for the homeless in Rio de Janeiro, Brazil. In: Salazar LM, Villar RCL, organizadores. Globalization and Health Inequities in Latin America. Ed.Springer. Brasil; 2018. p. 137-160.
5.Hallais JAS, Barros NF. Consultório na Rua: visibilidades, invisibilidades e hipervisibilidade. Cad. Saúde Pública. 2015; 31(7):1497-1504.

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