Comunicação Oral

23/03/2021 - 14:15 - 15:45
CC09 - Eixo 8 - Gestão do cuidado e desigualdades na atenção primária à saúde

34926 - ATRAVESSAMENTOS DA POBREZA NO CUIDADO INTEGRAL DOS TERRITÓRIOS: RELAÇÕES ENTRE A SAÚDE E O SOCIAL NA ATENÇÃO PRIMÁRIA
DELANE FELINTO PITOMBEIRA - UECE, LUCIA CONDE DE OLIVEIRA - UECE


Resumo
O cuidado em saúde na atenção primária constitui eixo basilar para a transformação do sistema de saúde, a partir da Estratégia Saúde da Família (ESF). Partindo da determinação social da saúde, considera-se as práticas de cuidado como produzidas a partir dos territórios em que a vida acontece. Tem-se por objetivo apreender os determinantes sociais que atravessam os territórios situados em contextos de pobreza, sob a perspectiva dos trabalhadores de saúde. Este trabalho é um recorte da tese de doutorado “Produção do cuidado em contextos de pobreza: interlocuções entre política de saúde e narrativas na atenção primária”, buscando inspiração em duas fontes teórico-metodológicas: o materialismo histórico e dialético e a hermenêutica. Além do estudo bibliográfico e documental, foram realizadas observação sistemática e entrevistas semiestruturadas com 32 trabalhadores de saúde da atenção primária. Em bairros pobres, as expressões da questão social são a base da determinação social, tecendo o cotidiano em toda a sua complexidade e evidenciando a mútua constituição entre saúde e sociedade. Essa realidade social complexa precisa ser considerada no âmbito dos cuidados em saúde, a partir do reconhecimento da determinação social que perpassa os territórios, as condições de vida das famílias e as relações de cuidado nos serviços de saúde.



Introdução
O cuidado em saúde na atenção primária constitui eixo basilar para a transformação do sistema de saúde, a partir da Estratégia Saúde da Família (ESF). No contexto da APS, o território é elemento fundamental seja na compreensão da delimitação e organização geográfica dos espaços, mas também como instância mediadora das relações de produção e reprodução social, no estabelecimento de trocas materiais e simbólicas (GONDIM; MONKEN, 2018). Partindo da determinação social da saúde (BREILH, 2010), consideram-se as práticas de cuidado como produzidas a partir dos territórios em que a vida acontece, pois se compreende a saúde como um processo complexo, que evidencia a relação dialética entre o social e o individual. Ao considerarmos a pobreza e as desigualdades na esteira da determinação dos processos saúde-doença, faz-se importante reconhecer as bases sociais, econômicas, simbólicas, subjetivas que constituem a vida em bairros pobres, e os sofrimentos produzidos diante da realidade social vivenciada nas periferias das cidades, fragilizando subjetividades e exigindo diferentes dimensões de cuidado (ONOCKO CAMPOS et al., 2012).

Objetivos
Este trabalho tem por objetivo apreender os determinantes sociais que atravessam os territórios situados em contextos de pobreza, sob a perspectiva dos trabalhadores de saúde, no intuito de refletir a relação entre pobreza, desigualdades sociais e cuidado integral no âmbito da atenção primária à saúde.

Metodologia
Esta pesquisa é um recorte da tese de doutorado “Produção do cuidado em contextos de pobreza: interlocuções entre política de saúde e narrativas na atenção primária”. Nesta pesquisa, buscou-se inspiração em duas fontes teórico-metodológicas, a saber, o materialismo histórico e dialético e a hermenêutica, entendendo que as dimensões macro e microssocial fazem parte de uma relação dialética, numa rede de complexidades e contradições. Além do estudo bibliográfico, para a produção do material empírico foi realizada pesquisa com dados secundários, mediante levantamento documental, e dados primários, sendo utilizada a técnica de observação sistemática nos territórios em duas unidades de atenção primária em contextos de pobreza selecionadas para o estudo. Também foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 32 trabalhadores de saúde nas referidas unidades.


Resultados e Discussão
No contexto dos bairros pobres, as expressões da questão social são a base da determinação social, tecendo o cotidiano em toda a sua complexidade e evidenciando a mútua constituição entre saúde e sociedade. A heterogeneidade de realidades demonstra as desigualdades existentes dentro dos bairros. As precárias condições de vida de grande parte da população saltam aos olhos da maioria dos trabalhadores, evidenciando as demandas “gritantes” da população, reafirmando a escala de pobreza estampada nos indicadores sociais, cujas desigualdades regionais pendem negativamente para as regiões Norte e Nordeste. O fato de se constituírem unidades de saúde inseridas em bairros bastante populosos aponta uma complexidade de questões relacionadas à vida urbana, para além da saúde, a exemplo da educação, trabalho, assistência, violência. O contato com situações de vida extrema no cotidiano do trabalho é “abissal” (SANTOS, 2007), sendo mobilizados afetos e reveladas diferenças entre trabalhadores e usuários. A multidimensionalidade da pobreza reflete implicações psicossociais (MARTIN-BARÓ, 1987), fazendo com que trabalhadores percebam o “desgaste psicológico enorme” vivenciado pela população.

Conclusões / Considerações finais
A pesquisa apontou uma realidade social complexa que precisa ser considerada no âmbito dos cuidados em saúde, a partir do reconhecimento da determinação social que perpassa os territórios, as condições de vida das famílias e as relações de cuidado nos serviços de saúde. Nesse sentido, é necessário compreender o projeto civilizatório que ancora a desigualdade estrutural brasileira, que torna mais complexo o entendimento da pobreza no Brasil. É importante ressaltar, ainda, o aprofundamento dos processos de vulnerabilização social, diante dos desafios políticos, sociais, sanitários e econômicos visibilizados com a pandemia em 2020. Desse modo, ficam reflexões sobre que cuidados são possíveis, a partir de uma realidade social tão dura e massacrante, bem como a indagação sobre como e quais atores serão necessários para que o cuidado em saúde, nesses contextos, encontre caminhos de possibilidade, indicando que muitos são os desafios frente à questão social brasileira e o desfinanciamento do SUS.



Referências
BREILH, J. Las tres ‘S’ de la determinación de la vida: 10 tesis hacia una visión crítica de la determinación social de la vida y la salud. In: NOGUEIRA, R.P. (org.). Determinação Social da Saúde e Reforma Sanitária. Rio de Janeiro: Cebes, 2010.
GONDIM, G.M.M; MONKEN, M. O uso do território na Atenção Primária à Saúde. In: MENDONÇA, M.H.M.; MATTA, G.C.; GIOVANELLA, L. (orgs). Atenção Primária à Saúde no Brasil: conceitos, práticas e pesquisa. RJ: Fiocruz, 2018.
MARTIN-BARÓ, I. O latino indolente: caráter ideológico do fatalismo. In: MARTIN-BARÓ, I. Crítica e Libertação na Psicologia: estudos psicossociais. Petrópolis, RJ: Vozes, 1987/2017.
ONOCKO CAMPOS, R.; MASSUDA, A.; VALLE, I., CASTAÑO, G.; PELLEGRINI, O. Saúde coletiva e psicanálise: entrecruzando conceitos em busca de políticas públicas potentes. In: ONOCKO CAMPOS, R. (org.). Psicanálise e saúde coletiva: interfaces. SP: Hucitec; 2012.

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