Comunicação Oral

25/03/2021 - 16:30 - 18:00
CC51 - Eixo 8 - Violências e cuidado a grupos em situações de vulnerabilidade/discriminação

34792 - ANÁLISE INTERSECCIONAL DO SEGUIMENTO DE MULHERES COM CRONICIDADE POR CHIKUNGUNYA RESIDENTES NA PERIFERIA DE UMA CAPITAL DO NORDESTE BRASILEIRO
KELLYANNE ABREU SILVA - UECE, ADRIANO FERREIRA MARTINS - UFC, MARIA ROCINEIDE FERREIRA DA SILVA - UECE, NELSON FELICE DE BARROS - UNICAMP, ANTONIO RODRIGUES FERREIRA JÚNIOR - UECE, ANDREA CAPRARA - UECE


Resumo
A cronicidade por Chikungunya tem no sexo feminino um dos fatores de risco para sua ocorrência. Produz dor, incapacidade e perda da qualidade de vida, impacta no campo social e econômico, é importante analisar a partir da interseccionalidade como fatores de raça, gênero e contexto social desigual podem dificultar o seguimento adequado à reabilitação dessas mulheres nos serviços de saúde. Objetivou-se analisar a partir da interseccionalidade o seguimento de mulheres com cronicidade por Chikungunya residentes na periferia de uma capital do Nordeste brasileiro. Estudo qualitativo, realizado em Fortaleza-CE, de janeiro a abril de 2019, com mulheres acometidas por Chikungunya em 2017, que autodeclararam ter cronicidade. Realizou-se entrevista semiestrutrada. Análise de conteúdo de Bardin e interpretação a partir do referencial da interseccionalidade Com o seguimento predominantemente no Sistema Único de Saúde, há dificuldade de acesso aos profissionais e serviços especializados de reabilitação, evidenciando como as desigualdades de relação a gênero, raça e condição social impactam o acesso qualificado à saúde, é importante considerar as interseccionalidades para dá conta das necessidades de saúde e assegurar a qualidade de vida das pessoas que são desafiadas por uma miríade de questões que antecedem o adoecimento, dificultando o restabelecimento da saúde de determinados grupos.

Introdução
A Chikungunya (CHIKV) com casos autóctones no Brasil desde 2014 (NUNES et al., 2015), doença febril associada a dor intensa e poliartralgia, evolui em alguns casos com cronicidade que afeta a vida das pessoas para além do comprometimento fisiológico, engloba o cultural, social e o psíquico.
Dentre os fatores associados à evolução para forma crônica da infecção por CHIKV constam ser do sexo feminino, ter idade acima de 40 anos (MARQUES et al., 2017).
Em alguns casos, os sintomas clínicos da cronicidade por CHIKV se assemelham aos geralmente associados à artrite reumatoide (BOUQUILLARD et al., 2018). Um comprometimento crônico incapacitante que afeta a realização das atividades diárias, poderá incluir limitações que vão da realização do autocuidado à participação social. O viver com dor e restrições pode dar espaço a angústia e ansiedade.
As condições de vida e saúde das mulheres acometidas por cronicidade, deve considerar o entrelaçamento, a intersecção dos fatores sociais, econômicos, culturais, étnicos/raciais, psicológicos e comportamentais na determinação da saúde (BUSS; PELLEGRINI FILHO, 2007).


Objetivos
Analisar a partir da interseccionalidade o seguimento de mulheres com cronicidade por Chikungunya residentes na periferia de uma capital do Nordeste brasileiro.

Metodologia
Desenvolvido no âmbito do projeto Ampliação de Intervenções Inovadoras e Vigilância para Prevenir e Controlar as Doenças Transmissíveis do Aedes aegypti em três países da América Latina: Colômbia Brasil e México, este estudo de abordagem qualitativa é parte de uma tese de doutorado. Foi realizado em Fortaleza-CE, em áreas de dois bairros periféricos, de janeiro a abril de 2019. Participaram 19 mulheres que se autodeclararam portadoras de cronicidade por CHIKV, ao responderem um questionário de em um estudo de custos das arboviroses para o paciente adoecido em 2017 e sua família, realizado no projeto maior. Foram feitas entrevistas semiestruturadas, previamente agendadas. Utilizou-se gravador de voz conforme permissão das mulheres. Procedeu-se a análise de conteúdo do material empírico com a análise a partir da teoria da interseccionalidade de Kimberlé Crenshaw. Aprovação no Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Estadual do Ceará Parecer n.º: 2.248.326.

Resultados e Discussão
As participantes tinham idade 45 a 72 anos, residiam em áreas de baixo IDH, com baixa escolaridade e renda, 12 se autodeclararam negra/parda. Predominantemente dependentes de atendimento no Sistema Único de Saúde, para identificação do acometimento por CHIKV na fase aguda as mulheres alternaram como porta de entrada nos serviços as Unidades de Atenção Primária à Saúde e Unidades de Pronto Atendimento, no entanto no curso da doença relataram dificuldade no acesso a consulta com profissional especializado como o reumatologista. Com dor, incapacidade perda de funções não conseguiram realizar fisioterapia, com queixa de sofrimento mental não acessaram consulta com profissionais da saúde mental. Os fatores sociais, econômicos, geracionais, de gênero e de raça/cor incidem nos corpos cronificados por CHIKV em situações de desigualdade. O ser mulher reivindica apontarmos o gênero como um importante determinante da saúde e do bem-estar (HEIDARI et al., 2017) e o residir na periferia traz a baixa qualidade de vida de grandes parcelas populacionais que residem em um local, muitas vezes desprovido de infraestrutura, legalidade e investimentos sociais fundamentais (GIATTI et al., 2019).

Conclusões / Considerações finais
Os desafios vivenciados por mulheres que têm cronicidade por CHIKV, já antecedidos por questões relacionadas a gênero, sexismo, raça, condições econômicas e sociais, demandam compreender, a partir da abordagem interseccional, como prover cuidado considerando todo o contexto em que elas se inserem, que envolve complexidade para que se possa promover saúde. As desigualdades vivenciadas impactam o acesso qualificado à saúde, à educação, ao emprego e renda, dentre outros recursos que seriam necessários para superação da morbidade e alcance da qualidade de vida por essas mulheres.

Referências
BOUQUILLARD, E. et al. Rheumatic manifestations associated with Chikungunya vírus infection: A study of 307 patients with 32-month follow-up. Joint Bone Spine, v. 85, n. 2, 2018.

BUSS, P. M.; PELLEGRINI FILHO, A. A saúde e seus determinantes sociais. Physis, Rio de Janeiro , v. 17, n. 1, 2007 .

GIATTI, L.L. et al. Nexos de exclusão e desafios de sustentabilidade e saúde em uma periferia urbana no Brasil. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro , v. 35, n. 7, 2019 .

HEIDARI, S. et al . Equidade de sexo e gênero na pesquisa: fundamentação das diretrizes SAGER e uso recomendado. Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília , v. 26, n. 3, 2017

MARQUES, C. D. L. et al . Recomendações da SBR para diagnóstico e tratamento da febre chikungunya. Parte 1 -Diagnóstico e situações especiais. Rev. Bras. Reumatol., São Paulo, v. 57, supl.2, 2017.

NUNES M.R.T. et al. Emergence and potential for spread of Chikungunya virus in Brazil. BMC Med., 2015.

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