Comunicação Oral

24/03/2021 - 11:15 - 12:45
CC19 - Eixo 4.1 - Atenção Básica, gestão da clínica e integralidade

34761 - ATENÇÃO PRIMÁRIA E O CUIDADO EM REDE NO CONTEXTO DA SÍNDROME CONGÊNITA ASSOCIADA AO ZIKA VÍRUS EM PERNAMBUCO
BERNADETE PEREZ COELHO - MEDICINA SOCIAL CCM UFPE, GABRIELLA MORAIS DUARTE DE MIRANDA - MEDICINA SOCIAL CCM UFPE, MARTINA LÚCIA DE SOUZA ARAÚJO - CCM UFPE, JOÃO MARCOS EZAQUIEL NASCIMENTO - CCM UFPE, ELIZABETH ARAUJO DIAS SILVA - CCM UFPE, DENNY ALISSON CHALEGRE BRISSANTT DA SILVA - CCM UFPE, CALINE MARIA DOS SANTOS PEREIRA - CCM UFPE, TIAGO FEITOSA DE OLIVEIRA - CCBS UNICAP


Resumo
A emergência suscitada pela epidemia do vírus Zika trouxe à luz a necessidade de reorganização da rede de atenção à saúde das crianças e famílias, incorporando serviços para abordagem às múltiplas deficiências. Foi necessária a garantia de acesso à rede e a qualificação da atenção para prevenir, diagnosticar precocemente e ofertar tratamento adequado. Este artigo busca analisar a garantia de acesso, avaliação da vulnerabilidade, vínculo terapêutico, coordenação do cuidado, equipe de referência e apoio matricial, articulados com projetos terapêuticos singulares. Foram acompanhadas crianças suspeitas durante quatro anos. Ao final desse período foi realizada a escuta das mães e profissionais de saúde utilizando a técnica do grupo focal. Evidencia-se a fragmentação do processo de trabalho e das relações entre os diferentes profissionais, dificuldades na coordenação do cuidado da APS, atenção centrada no procedimento e pouca abordagem das dimensões subjetiva e social. Percebe-se a força da defesa do SUS e a tradução de seus princípios em modos de fazer das redes e serviços, valorização do trabalho em equipe e mudança nos modelos de atenção e gestão. A proteção da saúde das crianças e suas famílias requer o fortalecimento da APS em rede sintonizada com a defesa da vida.

Introdução
A epidemia da doença exantemática pelo vírus Zika registrada em 2015 em todo o Brasil, gerou aumento inesperado de casos de microcefalia, com Pernambuco se destacando como estado com maior número de registros¹. O Sistema Único de Saúde (SUS) precisou adequar-se a uma nova realidade, em que maior número atendimentos de variadas modalidades são necessários, com garantia de acesso a uma rede integrada de serviços, e qualificação para prevenir, diagnosticar precocemente e ofertar tratamento adequado.
Nesse contexto, caberia à APS articular a rede de atenção para o melhor acompanhamento das crianças com síndrome congênita associada ao Zika vírus (SCVZ), mantendo o vínculo com as famílias, monitorando a evolução das crianças, identificando novas demandas, e coordenando o cuidado quando atenção especializada fosse necessária.
Entretanto, observaram-se lacunas comprometendo a integralidade das práticas em rede. Esse estudo busca analisar a rede de atenção à saúde e seu acompanhamento de crianças com SCVZ a partir do olhar da mãe ou cuidadores sócio-familiares e dos profissionais de saúde, analisando as percepções quanto ao acesso à rede de atenção à saúde para diagnóstico e acompanhamento.


Objetivos
Objetivo geral: analisar a atenção primária à saúde articulada em rede no contexto da epidemia da SCVZ em PE. Especificamente a gestão do acesso, vínculo terapêutico e responsabilização; os dispositivos de integração em rede como trabalho em equipe, elaboração de projeto terapêutico singular, apoio especializado matricial; a clínica ampliada e compartilhada incluindo as crianças, famílias e contexto.

Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, com aplicação da técnica de grupo focal como instrumento de coleta de dados como parte final do estudo longitudinal retrospectivo e prospectivo, com duração de quatro anos, o qual realizou o acompanhamento das crianças nascidas no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC) entre outubro de 2015 e fevereiro de 2016, incluindo as crianças cujas mães relataram doença febril e/ou exantema no decorrer da gestação e acompanhadas a partir do ambulatório de puericultura do Hospital.
Foram realizados dois grupos focais, um com famílias de parte das crianças acompanhadas, outro com profissionais da atenção primária à saúde e da atenção especializada. As discussões em cada grupo foram conduzidas a partir de eixos referentes a aspectos clínicos, psicossociais e de organização da rede de saúde, com posterior análise a partir de uma matriz com analisadores referente a essas temáticas.


Resultados e Discussão
A viabilidade do SUS depende da instalação de uma rede de atenção básica com capacidade de promover saúde, prevenir riscos, cuidar de doentes e reabilitar pessoas com problemas crônicos³.
Os grupos focais com cuidadores e profissionais trouxeram importantes reflexões sobre as dificuldades da APS em promover o acesso dessas crianças à rede de atenção a saúde, com pouca avaliação das vulnerabilidades familiares e com pouca construção de vínculo terapêutico. Somada a essas questões, a coordenação do cuidado se mostrou insuficiente, não apenas enquanto função da APS, mas quanto incapacidade da rede de atenção funcionar de maneira integrada. Nesse sentido, a discussão evidenciou que a APS não foi referência no cuidado para as crianças e famílias, e que a falta de apoio matricial especializado para as equipes na APS afetou a qualidade da oferta de cuidado. Em um contexto de faltas, um projeto terapêutico singularizado para essas crianças não pôde ser pensado ou executado, com os cuidadores sem perceber claramente quais as possibilidades e limitações no tratamento das crianças acometidas, e com profissionais reconhecendo a limitação de ação frente a fragmentação da rede de atenção.

Conclusões / Considerações finais
A epidemia da SCVZ evidenciou a necessidade analisar a complexa situação do nordeste brasileiro, considerando que para avaliar as diversas dimensões implicadas nas vulnerabilidades presentes no cotidiano das pessoas, é imprescindível escutar as falas desses indivíduos e coletivos, vistos em geral como “objetos”, seja de políticas, pesquisas ou intervenções em saúde. Partindo desse lugar privilegiado, foi possível perceber cisões importantes entre a potência da APS e das redes de atenção a saúde, e a realidade vivenciada nesses espaços, sobretudo em período de maior necessidade como a epidemia da SCVZ. Contudo, essas dificuldades só podem ser visualizadas por haver um movimento coletivo de busca por realizar essa potência, seja por iniciativa dos profissionais que constroem o SUS, ou pela demanda dos usuários. Portanto, a proteção da saúde das crianças e suas famílias diante do complexo fenômeno de produção da doença passa pela necessidade urgente de valorização da APS.


Referências
1. Diderichsen F, Augusto LGS, Perez C. Understanding social inequalities in Zika infection and its consequences: A model of pathways andpolicy entry-points. Glob. public health. 2018; 1: 1-9.
2. Trad Leny A. Bomfim. Grupos focais: conceitos, procedimentos e reflexões baseadas em experiências com o uso da técnica em pesquisas de saúde. Physis. 2009;19 (3): 777-796.
3. Campos GWS. Saúde Paidéia. São Paulo: Editora Hucitec, 2003.
4. Starfield B. Atenção Primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Brasília: Unesco/Ministério da Saúde; 2002.
5. Pereira JS, Machado WCA. Referência e contrarreferência entre os serviços de reabilitação física da pessoa com deficiência. Physis. 2016;26(3): 1033-1051.
6. Coêlho BP. A reformulação da Clínica a partir de diretrizes para atenção e gestão na saúde: subjetividade, política e invenção de práticas [Tese-Saúde pública]. Recife: Fiocruz, 2012.

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