Sessão Assíncrona

23/03/2021 - 09:00 - 18:00
SA11 - Eixo 10 - Produção de Conhecimento em Política, Planejamento e Gestão no Contexto da Saúde Coletiva (TODOS OS DIAS)

34745 - IDENTIDADE(S) TRANS: CORPO, PRODUÇÕES DISCURSIVAS E INTERSECCIONALIDADES
ANA LUISA ALMEIDA MELO - UFC, RICARDO JOSÉ SOARES PONTES - UFC, MARIA ROCINEIDE FERREIRA DA SILVA - UECE, CARMEM EMMANUELY LEITÃO ARAÚJO - UFC


Resumo
O estudo tem como objetivo refletir sobre o corpo trans, as produções discursivas, a interseccionalidade dos marcadores sociais e as relações saber-poder que investe sobre corpos dissidentes, a partir de fragmentos de entrevistas com duas mulheres transexuais, concedidas a sites jornalísticos e revistas. De natureza qualitativa, buscou-se produzir uma compreensão das experiências de vida e das transexualidades. Foi possível identificar situações de preconceito, estigma e violências presentes na experiência das duas mulheres trans. Percebeu-se que esses enfrentamentos cotidianos ganham intensidades distintas, sendo mais intensos e multifacetados em um dos casos. Isso parece associado a sobreposição dos marcadores sociais na perspectiva da interseccionalidade. Outro tema de destaque nos fragmentos são as percepções acerca dos procedimentos do processo transexualizador e, em específico, a cirurgia de redesignação sexual. Os achados reforçam a necessidade de ampliação do debate a respeito dos desafios a serem enfrentados no atendimento às necessidades sociais e de saúde das pessoas transexuais que vivenciam vulnerabilidades múltiplas. No campo da saúde coletiva, é fundamental a construção de saberes e práticas que fundamente a proposição de políticas sociais que considerem as diversidades de vidas da população brasileira e contemplem suas necessidades de saúde.


Introdução
Enquanto representação do ser e instrumento da sexualidade, o corpo manifesta características que refletem as construções sociais elaboradas pelos indivíduos durante sua evolução a partir das relações sociais constituídas. O corpo inscreve subjetividades e, por meio dele, é expressado visível e simbolicamente o gênero ao qual nos encaixamos ou não, numa construção discursiva, simbólica e mutável que possibilita o indivíduo imprimir e externalizar-se segundo a identidade na qual se reconhece. Foucault (1976) aponta que os corpos têm sido regidos e regulados pelo dispositivo da sexualidade para responder aos padrões sociais estabelecidos segundo os interesses da sociedade.

Características corpóreas em relação à masculinidade, à feminilidade, a raça e muitas outras características que nos inscrevem em um meio sociocultural, atuam, numa perspectiva interseccional, com outros marcadores sociais da diferença produzindo vulnerabilidades sociais de discriminação, patologização, violência e invisibilidade que atravessam e colocam a marginalizam as pessoas transexuais (CRENSHAW, 2002; BUTLER, 2003; 2015).

Objetivos
O estudo busca refletir sobre o corpo trans, as produções discursivas, a interseccionalidade e as relações saber-poder que se investe sobre corpos dissidentes, considerando suas implicações no estabelecimento de políticas públicas de saúde. Neste sentido, explora a constituição das identidades e os mecanismos de resistências que atravessam as experiências transexuais com vista no desenvolvimento de políticas sociais voltadas a atender demandas dessa população sob o olhar da interseccionalidade.

Metodologia
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, componente analítico da pesquisa de doutorado intitulada: Discursos e práticas da saúde e transexualidades. Aprovada pelo comitê de ética MEAC/UFC com parecer de número 3.937.687.

Para aproximar da experiência transexual e compor com dados secundários desde estudo, contemplamos duas mulheres trans brasileiras que viraram símbolos transexuais internacionalmente. Uma das entrevistadas é negra, da periferia, criada por mãe solteira, estudou teatro e formou uma banda com os amigos, é mulher trans possuidora de uma potente voz, que ganhou destaque internacional fazendo shows em vários países. A outra entrevistada é branca, filha de pescador e de professora, cursou moda e arquitetura, e é a primeira mulher trans a sair na capa de revista de moda de destaque internacional. Usamos fragmentos de entrevistas concedidas por elas a revistas e sites jornalísticos, buscando contemplar suas experiências de vida.

Resultados e Discussão
A seleção dos fragmentos buscou produzir uma compreensão das experiências de vida e a transexualidade.Sendo possível identificar enfrentamentos como preconceito, estigma e violências presentes na experiência das duas trans, mas que para uma se mostram mais intensos e multifacetados, dado a interseccinalidade dos marcadores sociais da diferença presentes na vida das entrevistadas e identificados nos discursos: uma mulher trans, negra, pobre e da periferia.Para Butler (2003) os corpos desviantes, que transgridem as normas da heteronormatividade e do binarismo sexual, rompem um enquadramento social e político, o que vem a maximizar a precariedade de vida pelo estigma, violências e vulnerabilidades sociais.
Outro tema de destaque nos fragmentos são as percepções acerca dos procedimentos do processo transexualizador e, em específico, a cirurgia de redesignação sexual.A partir dos discursos pôde-se perceber que as entrevistadas compreendem a identidade de gênero trans para além da cirurgia, não buscam alimentar e intensificar o enquadramento ao binarismo sexual, mostrando e fortalecendo a existência das pluralidades trans, que tentam romper ao dispositivo da transexualidade (BENTO, 2006).

Conclusões / Considerações finais
Estar dentro do enquadramento implica em existir com legitimidade aos olhos do outro.Estar fora condiz a não existir.Esta ideia permite pensar os corpos desviantes, que transgridem as normas de gênero como corpos abjetos a exigir estratégias de sobrevivência (BUTLER,2003).A produção de resistências frente a diversidade de marcadores sociais da diferença que atuam sob o olhar da interseccionalidade e alocam corpos trans num lugar de invisibilidade social é a luta constante dos movimentos sociais por reconhecimento dessa população nas políticas públicas.
É importante o fortalecimento do debate a respeito dos desafios enfrentados no atendimento às necessidades sociais e de saúde das pessoas trans que vivenciam vulneráveis múltiplas, visando a construção de saberes e práticas de produção e reprodução social, que fundamente a proposição de políticas de saúde que considerem as diversidades de vidas da população brasileira e minimizem os níveis de vulnerabilidades que incidem sob estas vidas.

Referências
BENTO, B. A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual. Editora Garamond,2006.
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

BUTLER, J. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

CRENSHAW. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Estudos Feministas. Ano 10 vol. 1, 2002.

FOUCAULT, M. História da sexualidade 1:a vontade de saber, publicação em 1976. Tradução, Paz e Terra, São Paulo, 2014. v. 1.

Revista EVA (2019). https://blog.jovempan.uol.com.br/eva/modelo-trans-cearense-ilustra-capa-de-revista-internacional-por-seu-poder-feminino/

Revista Marie Claire, nº 332, março de 2019.

Site jornalístico Nlucon em 2016. https://nlucon.com/2016/11/14/nenhuma-cirurgia-vai-me-fazer-mais-ou-menos-mulher-diz-a-modelo-trans-valentina-sampaio/

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