Sessão Assíncrona

23/03/2021 - 09:00 - 18:00
SA66 - Eixo 8 - GESTÃO DO CUIDADO E DESIGUALDADES NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE (TODOS OS DIAS)

34690 - ENTRE MEMÓRIAS E TEORIAS: OS DESAFIOS DO CUIDADO À PESSOA VIVENDO COM HIV PARA A UMA ENFERMEIRA DA ESF NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO.
ARETA PEIXOTO VELLASQUES - IESC/UFRJ, MARIA DE LOURDES TAVARES CAVALCANTI - IESC/UFRJ


Resumo
De acordo com o Ministério da Saúde, a Atenção Primária à Saúde passou a ser inserida na rede de atenção à pessoa vivendo com HIV (PVHIV) com o intuito de reduzir a sobrecarga dos profissionais do Serviço de Atenção Especializada e para ampliar o acesso ao tratamento, de modo a alcançar meta “90-90-90” estipulada pelo Programa de Aids das Nações Unidas. A Estratégia de Saúde da Família da cidade do Rio de Janeiro, a partir de 2013, é inserida na rede municipal de atenção à pessoa vivendo com HIV e AIDS (PVHA). Com a intenção de expor potências das consultas de Enfermagem de SF às PVHIV que, geralmente, ultrapassam os limites textuais dos protocolos e manuais oficiais sobre o cuidado da ESF à PVHIV, foi feito esse relato de experiência. Foram confrontadas 2 das principais referências da descentralização do cuidado à PVHIV para a ESF por intermédio das memórias da autora enquanto enfermeira de ESF do Rio de Janeiro. Os textos oficiais sobre o Cuidado Integral à PVHIV na APS endossam um modelo biomédico onde o enfermeiro pode não se perceber potente. Mas a enfermagem, compreendendo o cuidado como uma prática reflexiva, é capaz de ressignificar as práticas biomédicas prescritas por manuais e protocolos de orientação do cuidado à PVHIV na ESF.

Introdução
A descentralização do cuidado à pessoa vivendo com HIV (PVHIV) para a Estratégia de Saúde da Família (ESF) na cidade do Rio de Janeiro ampliou o acesso dessas pessoas tanto ao diagnóstico em tempo oportuno como à terapia antirretroviral (TARV), melhorando sua qualidade de vida e diminuindo o número de mortes por AIDS. De acordo com os dados disponíveis na plataforma virtual do Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis, em 2009 o município apresentava 18.381 pessoas em TARV; e em 2019 fechou o ano com 44.654 pessoas em tratamento. Porém, 7.122 das PVHIV vinculadas ao serviço, por algum motivo, até o final de 2019, não haviam iniciado a terapia. Sobre as perdas de seguimento, evidencia-se que, ao final do mesmo ano, 3.817 PVHIV haviam interrompido seu tratamento e 8.616 pessoas encontravam-se em adesão insuficiente. Ao menos nos últimos 8 anos, as unidades de Atenção Primária à Saúde do Rio de Janeiro reproduzem, com base nos documentos norteadores desse processo, uma prescrição do modelo biomédico de cuidado à PVHIV: diagnosticar, tratar e alcançar carga viral indetectável (Cascata de cuidado contínuo do HIV) (VELLASQUES, 2020).

Objetivos
apresentar algumas memórias de uma enfermeira de ESF que atuou de 2014 a 2020 em Clínica da Família no município do Rio de Janeiro de modo a confrontar um dos principais documentos que norteiam/nortearam as equipes de Saúde da Família (eSF) sobre o cuidado à PVHIV e, assim, expor potências das consultas de Enfermagem de SF às PVHIV que, geralmente, ultrapassam os limites textuais dos protocolos e manuais oficiais sobre o cuidado da ESF à PVHIV.

Metodologia
Esse é um recorte da dissertação de mestrado da autora, uma análise documental da política de descentralização do cuidado à PVHIV para a ESF. Nela foram levantadas e analisadas 16 fontes oficiais que nortearam os profissionais da APS nesse cuidado entre 2012 e 2019. Na coleta de dados a pesquisadora acessou suas memórias sobre o cuidado à PVHIV, quando profissional da ESF do Rio de Janeiro, e as confrontou com as fontes levantadas. O presente recorte se restringe a 2 dessas fontes. De acordo com Reis e Schucman (2010, p.389) “a memória remete ao tempo vivido, cujo conjunto de experiências compõe um campo de sentidos para a construção de sua identidade” e possibilita que o passado interfira no presente e futuro dos sujeitos (BOSI, 2003 apud REIS, SCHUCMAN, 2010). A análise dos documentos possibilita reconstruir alguns processos (CELLARD, 2012). Juntos, esses recursos metodológicos tornam-se mais potentes para uma prática profissional reflexiva no campo do cuidado.

Resultados e Discussão
A Fast Track Strategy propõe a “cascata de cuidado contínuo do HIV” para políticas públicas (PP) rumo ao “fim da AIDS” em 2030 (PARKER, 2020). Por isso, o PCDT HIV/AIDS adulto e o curso do TELELAB “O cuidado Integral da PVHIV na Unidade Básica de Saúde”, embora usem o termo Cuidado Integral, tem como foco do cuidado a TARV e a carga viral indetectável. Para Seckinelgin (2019), enquanto norte de PP, a cascata pode apresentar falhas, uma vez que não abarca questões como as que afetam a entrada e/ou a saída de uma PVHIV no processo. Após 6 meses numa eSF, a autora identificou em consulta de enfermagem 2 PVHIV em TARV focadas no abandono: uma entendia indetectável como cura e não queria mais tomar remédio; a outra dizia ter sono pelo uso diurno, com prejuízo no trabalho. Logo, foi realizado levantamento das PVHIV em TARV; elaborada planilha de monitoramento de consultas e exames; a cada 6 meses o tema HIV era pauta em reunião, principalmente, para desconstruir preconceitos internos que engessassem o cuidado integral às PVHIV; as consultas de enfermagem passaram a ter a mesma periodicidade das médicas; e o acesso aos testes rápidos foi ampliado.

Conclusões / Considerações finais
A enfermagem há muito tempo lida com o cuidado e se apropriou cada vez mais de suas dimensões técnicas e científicas, se afastando, em parte, da sua dimensão relacional (AYRES, 2017). Os textos oficiais sobre o Cuidado Integral à PVHIV na APS endossam um modelo biomédico onde o enfermeiro pode não se perceber potente. Pesquisadores infectologistas revelam que a TARV não deve ser uma espécie de “oportunidade única na vida” e sugerem “estratégias multifacetadas e escalonáveis” (NACHEGA et al 2018, p. 1487) para envolver as PVHIV. A partir disso, a autora, junto à equipe, pôde refletir sobre as práticas de cuidado à PVHIV na ESF. Durante 2 anos e meio, não houve abandono da TARV pelas PVHIV vinculadas à equipe e a maioria delas, assim como a equipe, passou a compreender a importância da consulta de enfermagem nesse processo; e os ACS passaram a se perceber parte desse cuidado ao sentirem-se seguros para abordar o tema no acolhimento e visitas domiciliares.

Referências
AYRES, J.R. Cuidado: trabalho, interação e saber nas práticas de saúde. Revista Baiana de Enfermagem, 2017.
SCHUCMAN, L.V. A constituição social da memória: lembranças de uma testemunha da II Guerra Mundial. Psi. em Rev., 2010.
CELLARD, A. A análise documental. In: POUPART, J. et al (Org.). A pesquisa qualitativa – enfoques epistemológicos e metodológicos. Vozes, 2012.
PARKER, R. Inventing the Epidemic: the politics of AIDS and the invention of global health. [S.l.], 2020. prelo.
SECKINELGIN, H. People don’t live on the care cascade: The life of the HIV care cascade as an international AIDS policy and its implications. G. Public Health, 2019.
NACHEGA, J B. Et al. Achieving Viral Suppression in 90% of People Living With Human Immunodeficiency Virus on Antiretroviral Therapy in Low and Middle Income Countries: Progress, Challenges, and Opportunities. Infections Diseases Society of America - IDSA, 2018.

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