Comunicação Oral

25/03/2021 - 16:30 - 18:00
CC51 - Eixo 8 - Violências e cuidado a grupos em situações de vulnerabilidade/discriminação

34663 - A CONSTRUÇÃO DO VÍNCULO NO CUIDADO À SAÚDE DE MULHERES LÉSBICAS E BISSEXUAIS
AMANDA GOMES PEREIRA - UNIFESP, MARIANA ARANTES NASSER - UNIFESP, ADEMAR ARTHUR CHIORO DOS REIS - UNIFESP


Resumo
Mulheres lésbicas e bissexuais enfrentam, além da discriminação e preconceito, dificuldades para o reconhecimento de suas necessidades específicas que resultam em iniquidades no acesso integral à saúde. O estabelecimento de vínculo com profissional de saúde, embora tema ainda pouco explorado, é essencial para um bom cuidado e para que outras necessidades sejam atendidas. O objetivo deste estudo é compreender os modos de construção de vínculo no cuidado à saúde de mulheres lésbicas/bissexuais. Adotou-se metodologia qualitativa, utilizando-se o método biográfico, a partir da abordagem de histórias de vida. A população estudada é formada por 14 mulheres, divididas entre militantes e não militantes de movimentos sociais, para analisar se tal pertença afeta a produção de vínculos. As entrevistas foram realizadas presencialmente e on-line, enfocando aspectos como: retrato social, a vivência da sexualidade, a experiência em relação ao processo saúde-doença e no relacionamento com profissionais, equipes e serviços de saúde. A análise buscou reconhecer planos de visibilidade, que foram sistematizados como: Identidade e reconhecimento de si; Preconceitos e discriminação; (In)visibilização da sexualidade na busca do cuidado; Estratégias da mulher lésbica/bissexual no uso dos serviços; Abordagens do serviço com a mulher lésbica/bissexual; Percepções do (des)cuidado e Vínculo e aceitação.

Introdução
A entrada das pautas LGBT nas políticas de saúde ocorreu diante de um longo processo de lutas e construção de agenda política. Para as mulheres lésbicas e bissexuais especificamente foi necessária uma complexa interlocução com os movimentos feminista e LGBT para a legitimação de suas necessidades (Soares e Costa, 2011).
A Política Nacional de Saúde Integral LGBT, instituída em 2011, marca o reconhecimento dos efeitos da discriminação e exclusão no processo saúde-doença desta população e suas diretrizes são construídas nessa direção.
Porém, ainda há muitos desafios a serem enfrentados. Estudos apontam a dificuldade no reconhecimento de suas necessidades específicas e que o acesso aos serviços de saúde ainda é um obstáculo (Popadiuk, Oliveira e Signorelli, 2017; Gomes et al., 2018).
O estabelecimento de vínculo com profissional de saúde é trazido na cartografia das necessidades de saúde produzida por Cecílio (2012). O vínculo tem natureza terapêutica e é essencial para que outras necessidades sejam atendidas. Para populações vulneráveis, pode ser o caminho para garantir o acesso e efetivar a equidade e a integralidade, contudo, também pode ser atravessado pelo preconceito.

Objetivos
Compreender os modos de construção de vínculo na produção do cuidado à saúde de mulheres lésbicas.
Objetivos específicos:
1. Reconhecer os mapas de cuidado à saúde produzidos por mulheres lésbicas;
2. Identificar as estratégias e dispositivos (formais e informais) que favorecem ou dificultam a construção de vínculo no cuidado à saúde;
3. Analisar como os modos de produção de vínculo são afetados a partir de pertença a movimentos sociais e marcadores sociais da diferença.


Metodologia
Utilizou-se metodologia qualitativa e emprego do método biográfico, a partir da abordagem de histórias de vida.
A população, escolhida intencionalmente, é formada por 14 mulheres, divididas entre militantes e não militantes de movimentos sociais, para analisar se tal pertença afeta a produção de vínculos. Buscou-se ainda diversidade em relação a marcadores sociais da diferença. Foram realizadas entrevistas individuais semiestruturadas, presencialmente e on-line, com assinatura do TCLE.
A construção das narrativas se baseou em modelo utilizado por Cecílio, Carapinheiro e Andreazza (2014), adaptado ao estudo: Retrato social da entrevistada; experiência em relação à sexualidade; experiência em relação ao processo saúde-doença; elementos analíticos presentes na história biográfica. A análise se deu com o reconhecimento de planos de visibilidade, que foram sistematizados, aprofundados e discutidos com a literatura.
O estudo foi aprovado pelo CEP da UNIFESP, sob CAAE 17221919.0.0000.5505.


Resultados e Discussão
Foram evidenciados 7 planos de visibilidade a partir das narrativas:
Identidade e reconhecimento de si – se evidenciaram diferenças no processo de construção identitária entre militantes e não militantes, bem como de acordo com a classe social.
Preconceitos e discriminação – para algumas mulheres outros tipos de preconceito trazem maior sofrimento do que a homofobia.
(In)visibilização da sexualidade na busca do cuidado – a ocultação da sexualidade busca evitar a discriminação. Entre algumas militantes, observou-se movimento de afirmação.
Estratégias da mulher lésbica/bissexual no uso dos serviços – ir acompanhada da parceira; criar roteiro de respostas e adotar postura afirmativa, combativa ou “humanizada”.
Abordagens do serviço com a mulher lésbica/bissexual - a sexualidade só é abordada no contexto da saúde sexual e reprodutiva e raramente é considerada no projeto terapêutico.
Percepções do (des)cuidado – relacionadas à escuta genuína e não julgamento de sua sexualidade, não ao cuidado direcionado às especificidades.
Vínculo e aceitação - a construção de vínculo passa pela aceitação da sexualidade. Entre as militantes, geralmente ocorre com profissionais da própria militância.


Conclusões / Considerações finais
Os resultados do estudo corroboram com a literatura em relação às dificuldades no acesso, no reconhecimento das necessidades específicas e tentativa de invisibilização da sexualidade de mulheres lésbicas e bissexuais.
Foi possível reconhecer que a busca pela aceitação de sua sexualidade guia a produção dos mapas de cuidado, bem como a construção de vínculo. Vivências de cuidado potente foram identificadas quando essa busca encontra um espaço seguro de escuta e respeito por parte dos profissionais. Contudo, carece a ele avançar em relação às especificidades dessas mulheres.
A pertença a movimentos sociais se apresentou como um atravessador importante na construção de vínculo, visto que militantes tendem a adotar postura mais afirmativa e combativa e buscar caminhos que garantam seu direito à saúde. Marcadores como classe social, raça e identidades dissidentes de um padrão social também afetam tal processo, visto que antecipam ou potencializam a situação de exclusão e o acesso à saúde.

Referências
Cecílio LC. Sobre as necessidades de saúde. In: Cecílio LC, Lacaz FA. O Trabalho em Saúde. Rio de Janeiro: Cebes; 2012.
Cecílio LC, Carapinheiro G, Andreazza R. Os mapas do cuidado: o agir leigo na saúde. Hucitec, Fapesp, São Paulo: 2014. 198p.
Gomes SM et al. O SUS fora do armário: concepções de gestores municipais de saúde sobre a população LGBT. Saúde soc., São Paulo, v. 27, n. 4, p. 1120-1133, out. 2018.
Popadiuk, GS, Oliveira DC, Signorelli MC. A Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros (LGBT) e o acesso ao Processo Transexualizador no Sistema Único de Saúde (SUS): avanços e desafios. Ciênc. Saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 22, n. 5, p. 1509-1520, maio 2017.
Soares G, Costa J. Movimento lésbico e Movimento feminista no Brasil: recuperando encontros e desencontros. Revista labrys, Estudos Feministas, janeiro-junho de 2012 (on line).

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