Comunicação Oral

25/03/2021 - 11:15 - 12:45
CC42 - Eixo 3 - Comunicação e Construção de Redes

34622 - MOVIMENTOS SOCIAIS E ATIVISMO ONLINE NO CAMPO DA SAÚDE EM SALVADOR
GABRIELA RANGEL DE MOURA SANTOS - UFBA, DANIELLE RIBEIRO DE MORAES - EPSJV, LENY TRAD - UFBA


Resumo
Apesar das conquistas do Movimento da Reforma Sanitária, culminando com a saúde como direito garantido na CF 1988, os canais institucionais de participação social no Brasil não apresentaram os resultados esperados. O objetivo desse estudo foi analisar as formas de ação política de movimentos sociais, que atuam na defesa do direito à saúde em Salvador, e que utilizam as mídias sociais na conformação de seu ativismo. Adotou-se, como referencial teórico-metodológico, a abordagem de Boaventura de Sousa Santos, acerca das epistemologias do Sul e da ecologia dos saberes, assim como a construção de Geoffrey Pleyers a respeito dos movimentos sociais contemporâneos; e, como estratégia metodológica, o estudo das mídias sociais e da formação de rede. Os principais resultados apontam que as nTIC contribuem para a conformação do ativismo contemporâneo, e as formas de ação da maior parte dos movimentos aproximam-se das vias propostas pela cultura alterativista de Pleyers: da razão e da subjetividade. Sugerem, ainda, convergências e possibilidades de articulação entre os movimentos estudados, com base no trabalho de tradução de Santos. Reafirma-se, portanto, que os movimentos sociais reinventam novas formas de ação a partir de novos contextos sociais, políticos, e novas ferramentas de ação, devendo ser considerados como produtores de práticas, de conhecimentos e visões de mundo.

Introdução
Se, por um lado, a globalização reduziu a capacidade de ação de cidadãos, dada à distância entre os mesmos e o espaço das decisões políticas diante da magnitude dos desafios globais (PLEYERS, 2018); por outro, implicou em avanços no desenvolvimento dos processos democráticos.
As transformações sociais, resultantes do desenvolvimento da ciência e tecnologia no século XXI e da interconexão da “sociedade em rede” (CASTELLS, 2002), promoveram uma criativa agenda de ações políticas, a partir do surgimento de novos mecanismos de comunicação, diferentes articulações da sociedade civil, ampliação da esfera pública e da arena política (PINHO, 2012; BRUGUÉ, 2009 apud ARAÚJO; PENTEADO; SANTOS, 2015).
Essas ações, estudadas como ativismo online, ativismo digital, ciberativismo ou webativismo, correspondem a um tipo de ativismo realizado por grupos politicamente motivados, que utilizam as redes cibernéticas  para a mobilização e divulgação de causas políticas, culturais, sociais ou ambientais (MORAES, 2001).
Nessa perspectiva, esse trabalho estudou movimentos sociais que atuam na defesa do direito à saúde em Salvador e utilizam as mídias sociais digitais para desenvolver o seu ativismo.


Objetivos
O objetivo desse trabalho é discutir resultados de pesquisa, realizada em 2019, relativa a movimentos sociais atuantes na luta pelo direito à saúde em Salvador e que utilizam as mídias sociais para desenvolver o seu ativismo. Especificamente, buscou caracterizar os movimentos quanto a objetivos, pautas, público-alvo, articulações com outros atores, tipos de mídias utilizadas e formas de ação política, analisando o uso que os mesmos fazem das mídias e as formas de ação, na perspectiva do ativismo.

Metodologia
Como perspectiva teórico-metodológica, adotou-se a abordagem das Epistemologias do Sul, da sociologia das ausências e das emergências (SANTOS, 2014) e a proposta epistemológica de Pleyers (2018) para a compreensão dos movimentos sociais contemporâneos. Foram selecionados 8 movimentos sociais atuantes na luta pelo direito à saúde em Salvador e que utilizam as mídias sociais para desenvolver o seu ativismo, sendo estudados os blogs, websites e SRS Facebook dos mesmos, com base no período 2016- 2019. A investigação, de caráter qualitativo, envolveu a caracterização dos movimentos em relação a: objetivos, pautas, público-alvo, articulações com outros atores, tipos de mídias sociais utilizadas e formas de ação política, e a análise desses dois últimos. Para a análise das formas de ação, utilizou-se a perspectiva do alterativismo (PLEYERS, 2018); e para a análise das articulações dos movimentos, a perspectiva do trabalho de tradução (SANTOS, 2002).

Resultados e Discussão
Os resultados apontam que as nTIC contribuem para a conformação do ativismo contemporâneo em saúde e que os movimentos sociais estudados utilizam as mídias sociais digitais conforme as inovações tecnológicas que se apresentam, a fim de melhor desenvolver o seu ativismo. Dentre as formas de ação estudadas, evidencia-se uma aproximação em relação aos caminhos propostos por Pleyers relativos à cultura alterativista, o que implica dizer que o ativismo se caracteriza tanto pelas análises científicas e técnicas (via da razão), quanto pela autonomia da experiência vivida e da criatividade (via da subjetividade). Além disso, o ativismo se expressa através das inscrições nas redes sociais, mas, também, pelas articulações entre vida pública e vida privada, entre amizade e compromisso, mundo virtual e praças públicas, mundo da vida e mundo da cidadania. Ainda em relação às ações, pode-se dizer que os movimentos locais estudados revelaram respostas tanto relativas às ressonâncias nacionais e globais, quanto às necessidades de seus territórios. Por fim, sugerem uma constelação de movimentos convergentes, no que diz respeito às pautas e formas de ação, com potencial de articulação e agregação.

Conclusões / Considerações finais
A partir desse estudo, foi possível perceber que, apesar dos limites ao uso das tecnologias, seja pelo alcance da tecnologia em si, seja pelas potencialidades do seu uso para o exercício do ativismo enquanto efetividade democrática, a internet e as redes sociais favorecem a articulação de múltiplas formas e práticas de democracia. Entendendo a democracia enquanto reinvenção coletiva permanente, que deve ser pensada com e a partir dos atores e das experiências concretas, pode-se dizer que o exercício democrático se encontra na vida cotidiana, e a política não pode ser considerada a partir da separação entre “espaço público” e “vida privada”. Nesse sentido, como demostra esse estudo, muitos movimentos atuais estão implementando diferentes formas de democracia em todos os âmbitos da vida, evidenciando uma reconfiguração da democracia para o século XXI, a partir de outros significados e perspectivas.

Referências
ARAÚJO, R. P. A.; PENTEADO, C. L. C.; SANTOS, M. B. P. Democracia digital e experiências de e-participação: webativismo e políticas públicas. História, Ciências, Saúde, v. 22, supl. dez, p. 1597-1619, 2015.
CASTELLS, 2002. A Sociedade em Rede. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.
MORAES, D. O Ativismo Digital. 2001. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/moraes-denis-ativismo-digital.html. Acesso em: 18 Abr. 2019.
PLEYERS, G. Movimientos sociales en el siglo XXI. Posfacio de Breno Bringel; prefacio de Boaventura de Sousa Santos. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018.
PINHO, J. A. (Org.). Estado, sociedade e interações digitais: expectativas democráticas. Salvador: Edufba. 2012
SANTOS, B. de S. Por uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências. Revista Crítica de Ciências Sociais, v. 63, 2002, p. 237-280.
__________. Epistemologías del Sur. Madrid: Akal, 2014.

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