Sessão Assíncrona

23/03/2021 - 09:00 - 18:00
SA21 - Eixo 1 - Políticas de Saúde Mental (TODOS OS DIAS)

34573 - O SOFRIMENTO PSÍQUICO NA PANDEMIA: ESTRATÉGIAS DE CUIDADO PSICOSSOCIAL NA APS
GIOVANNA DEVIETRO PEREIRA - USP, NÁTALI CRISTOFOLLI WENDICH - USP, RENATA LUIZA DOS SANTOS KRUTLI - USP


Resumo
Diante de uma pandemia, a população é afetada por meio de uma instabilidade psicossocial, que ocorre em diferentes níveis de intensidade e de gravidade. O presente trabalho objetiva relatar a experiência de residentes do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva e Atenção Primária à Saúde (APS) e Programa de Residência de Medicina Preventiva e Social inseridas no Centro de Saúde Escola Samuel Barnsley Pessoa (CSEB) em São Paulo, no período da pandemia de COVID-19, voltadas ao cuidado em saúde mental dos usuários, sob supervisão de profissionais de saúde do serviço: duas enfermeiras, uma psicóloga e uma médica. Nesse contexto, foi elaborado um planejamento de ações de cuidado, visando promoção de saúde e cuidado psicossocial, com foco voltado ao acompanhamento de usuários durante o distanciamento social, através de ligações telefônicas. O caminho percorrido nas ações de cuidado em saúde mental foi permeado de desafios, limitações, descobertas de novas possibilidades e reinvenções. Possibilitou-se mais de 200 ligações, e abertura para relatos de medo, ansiedade, dificuldades financeiras, queixas clínicas e conflitos familiares. Conclui-se que essa experiência integrou conhecimentos prévios e novos saberes adquiridos com a experiência na práxis de imersão da APS, promovendo a discussão da relevância de ações de promoção da saúde em tempos de pandemia.

Introdução
Na APS, compreende-se o sujeito em sua singularidade e inserção sociocultural, orientados pelos princípios da universalidade, acessibilidade, do vínculo, da continuidade do cuidado, da integralidade da atenção, da responsabilização, da humanização, da equidade e da participação social. Nesse sentido, as intervenções em saúde mental na APS devem promover possibilidades de produção de vida e de saúde, construídas no cotidiano dos encontros entre profissionais e usuários, possibilitando criar juntos estratégias para construir o cuidado (BRASIL, 2013).
Na pandemia, compreende-se que a população é afetada por meio de uma instabilidade psicossocial, que pode ultrapassar sua capacidade de enfrentamento, por impor novas formas de sociabilidade. Este impacto psicossocial ocorre em diferentes níveis de intensidade e de gravidade. Dessa forma, foi necessário criar ações de cuidado psicossocial para o território adscrito do CSEB, visando minimizar os danos psíquicos que podem ocorrer devido à crise sanitária. As ações foram elaboradas por residentes da Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva e Atenção Primária à Saúde e Residência de Medicina Preventiva e Social inseridas no CSEB.

Objetivos
Relatar a experiência de teleatendimento visando o apoio, acolhimento e promoção de saúde mental para os usuários, com foco em garantir a integralidade do cuidado à distância, buscando minimizar os efeitos do isolamento social, medo do contágio, entre outros sentimentos resultantes da pandemia. Além de acolher demandas clínicas e/ou psicológicas que necessitem de maior apoio da equipe de referência, bem como ampliação da escuta e do vínculo com os usuários.

Metodologia
Considerando o contexto imposto pela pandemia, que limitava o contato físico, foi necessário buscar alternativas para oferecer suporte à distância. Segundo Deleuze (1996), os dispositivos são meios de visibilidade e enunciação, dessa forma, foi necessário pensar em um dispositivo que desse visibilidade para a unidade, reafirmando-a como referência para o usuário, e principalmente, por meio da enunciação dos usuários, fazer falar suas necessidades de saúde frente à pandemia. Sendo assim, a partir das possibilidades e riscos avaliados, concluiu-se que a melhor opção para o cuidado neste cenário seria o teleatendimento.
Tendo em vista que a unidade possui 10.400 matriculados ativos, foi necessário definir quais seriam os usuários prioritários para o projeto, por meio de listas de vulnerabilidades elaboradas pelas equipes do CSEB. A partir de articulações com equipamentos do território, foi elaborado um roteiro a ser seguidos nas ligações, contemplando aspectos psicossociais.

Resultados e Discussão
Os teleatendimentos realizados inicialmente foram por meio de busca ativa, totalizando até o julho/2020 mais de 200 ligações. Nos encontros telefônicos, apareceram temas recorrentes como medo, ansiedade, dificuldades financeiras devido à quarentena, queixas clínicas e conflitos familiares. Desde os primeiros contatos, o usuário se sentir lembrado pelo equipamento de saúde foi simbólico, como movimento de sustentação e enfrentamento para este momento vivido. Por meio da fala, usuários demonstraram reconhecimento do CSEB como espaço de referência do cuidado.
Essas ligações foram um dispositivo para achar signos linguísticos que retratassem o medo que recai sobre o corpo e fortalecer os vínculos por meio do acolhimento e escuta (BROIDE, BROIDE, 2016). Os telefonemas, antes curtos e repletos de afetos positivos e agradecimento pelo contato, passaram a ser longas conversas de muito acolhimento e legitimação das narrativas.
Houveram relatos de usuários que apresentaram medo intenso de contrair o vírus, até usuários que relatam a possibilidade para expandir relações, fortalecer ações de solidariedade e se encontrar em uma nova relação com a própria morada em meio a pandemia.

Conclusões / Considerações finais
A elaboração de ações de cuidado em saúde mental para usuários foi rodeado de desafios e reinvenções. O encontro por vias telefônicas implicou em um olhar para o “mal estar da desterritorialização” (ROLNIK, 2011). O mergulho no novo, sair dos territórios comuns do encontro presencial, possibilitou reinventar um encontro onde o desejo estivesse presente na voz. Nas ligações foi necessário corporificar a fala e acolher o choro por meio da linguagem que falha na hora de significar o momento vivido.
Falar sobre a pandemia não foi apenas relatar vivências, mas possibilitou narrar histórias e ressignificar memórias, trazer para a linguagem e restabelecer um plano de sustentação simbólica. As ligações funcionaram como dispositivo para trazer do silenciamento à palavra e fortalecer os vínculos por meio do acolhimento e escuta. Além do cuidado psíquico, criou-se uma ponte com as equipes, visando a resolutividades das demandas de saúde, reforçando a integralidade do cuidado.

Referências
BRASIL, Ministério da Saúde; Escola Fiocruz de Governo; Fundação Oswaldo Cruz. Atualização em Saúde Mental e Atenção Psicossocial em situações de pandemia COVID-19: recomendações gerais. Coordenação-Geral de Maria Fabiana Damásio Passos. Brasília: Escola de Governo Fiocruz Brasília, 2020.
BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde mental / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de AB, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Cadernos de atenção básica, n. 34. Brasília : Ministério da Saúde, 2013.
BROIDE, J. & BROIDE, E. E. A psicanálise nas situações sociais críticas: metodologia clínica e intervenções. 2. ed. São Paulo: Escuta, 2016.
DELEUZE, G. O que é um dispositivo? In: DELEUZE, G. O mistério de Ariana. Lisboa: Vega/Passagens, 1996. p. 83-96.
ROLNIK, S. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina, 2011.

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