Sessão Assíncrona

23/03/2021 - 09:00 - 18:00
SA11 - Eixo 10 - Produção de Conhecimento em Política, Planejamento e Gestão no Contexto da Saúde Coletiva (TODOS OS DIAS)

34407 - FERRAMENTAS PARTICIPATIVAS NAS PESQUISAS DE ADAPTAÇÃO TRANSCULTURAL: REFLEXÕES A PARTIR DA ADAPTAÇÃO DO INSTRUMENTO RECOVERY SELF-ASSESSMENT FAMÍLIA
LEIDY JANETH ERAZO CHAVEZ - UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS, EHIDEÉ ISABEL GÓMEZ LA ROTTA - UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS, ROSANA TERESA ONOCKO CAMPOS - UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS


Resumo
O presente relato de pesquisa teve como objetivo reflexionar sobre as potencialidades das ferramentas participativas na adaptação transcultural de instrumentos em saúde mental, a partir da análise da experiência da pesquisa de adaptação transcultural do Recovery Self-Assessment RSA-R família para o Brasil. Utilizamos como base os resultados do estudo que validou transculturalmente o RSA-R família. O estudo base contou com a participação de familiares de usuários acompanhados pelos serviços de saúde mental dos municípios de Campinas e Itatiba. Foi seguida a metodologia de adaptação transcultural de instrumentos (ATC). Para este artigo analisamos principalmente os dois estudos pilotos. Identificamos que no estudo de ATC do RSA-R família ao contexto brasileiro foi incorporada uma abordagem êmica-ética, pois se manteve a proximidade com questionário original, considerando as diferenças entre os países. Os grupos focais e as entrevistas realizadas foram importantes ferramentas advindas das pesquisas participativas que nos permitiram a interação com os participantes dando-nos argumentos sólidos para sustentar mudanças essenciais no RSA-R família. Concluímos que a inclusão de princípios participativos nas pesquisas de ATC é um campo promissor para dar respostas as demandas reais dos participantes, que ao final seriam os principais beneficiados com os resultados das pesquisas.

Introdução
A adaptação transcultural (ATC) busca responder a duas demandas, a de disponibilizar instrumentos que sejam sensíveis, efetivos e válidos para uso no campo da saúde mental; e que, por sua vez, haja instrumentos consistentes o suficiente para estabelecer padrões de comparação entre diferentes países e culturas (1).
A partir desse enfoque os estudos de ATC podem ser abordados sob o paradigma êmico-ético. A perspectiva êmica concentra-se na abordagem cultural dos fenômenos estudados. A abordagem ética concentra-se nos dilemas de comportamento a partir de uma perspectiva universal. Um modelo ideal de ATC deveria incorporar as duas abordagens, através procedimentos que contemplem uma flexibilidade cultural, mas, que ao mesmo tempo, possa garantir a generalização das descobertas (2).
Na ATC de instrumentos na área da saúde mental observa-se uma predominância de publicações com métodos estatísticos, mas que apresentam poucas referências a respeito dos resultados do processo de adaptação. Isto nos faz supor que a maioria pesquisas de ATC nessa área está permeada por uma abordagem ética, más que podem não estar dando conta de todas as necessidades da população alvo.


Objetivos
Geral
Reflexionar sobre as potencialidades das ferramentas participativas na adaptação transcultural de instrumentos em saúde mental, a partir da análise da experiência da pesquisa de adaptação transcultural do Recovery Self-Assessment RSA-R família.
Específicos
• Aportar uma análise crítica dos principais resultados do processo de adaptação transcultural sob a abordagem êmico-ética.
• Identificar as potencialidades dos princípios participativos nas pesquisas de adaptação transcultural.


Metodologia
Realizamos o presente relato de pesquisa tendo em consideração os resultados obtidos em pesquisa que validou o instrumento Recovery Self Assessment (RSA-R) família. O RSA-R família avalia se os familiares dos usuários em acompanhamento nos serviços de saúde mental consideram que os serviços se orientam para o recovery. Participaram do estudo familiares de usuários acompanhados nos serviços de saúde mental de Campinas e Itatiba. Seguimos a metodologia de ATC de instrumentos que inclui as etapas de tradução, retrotradução, avaliação por especialistas, dois estudos pilotos com familiares e dois estudos de confiabilidade e validade. Para este artigo foram analisados principalmente os dois estudos piloto: no piloto I foram realizados 3 Grupos focais com 9 familiares; no Piloto II foi aplicado o instrumento e foram feitas entrevistas cognitivas com 10 familiares. Nesta etapa foi vinculada uma profissional da área da educação popular para nos ajudar na análise do material e propor alterações.

Resultados e Discussão
No estudo de ATC do RSA-R família ao contexto brasileiro foi incorporada uma abordagem êmica-ética, pois se tentou restituir os conteúdos o mais próximo do questionário original, reconhecendo as diferenças socioculturais entre os dois países, Estados Unidos e Brasil. Os grupos focais e as entrevistas realizadas foram importantes ferramentas advindas das pesquisas participativas que nos permitiram a interação com os participantes dando-nos argumentos sólidos para sustentar mudanças essenciais no instrumento RSA-R família. Além disso, a inclusão de uma profissional da educação popular, na revisão e reedição do instrumento em uma linguagem mais simples foi essencial para tornar o instrumento mais próximo da realidade brasileira
Pode-se encontrar experiências similares na literatura (3–4), principalmente quando se trata de ATC de instrumentos para culturas indígenas ou de imigrantes, onde há relação em conflito no estabelecimento das práticas de saúde, entre a cultura dominante e cultura específica dos grupos. Portanto, a participação nas pesquisas de ATC se daria através da promoção de criação de espaços coletivos de diálogo nas diferentes etapas da pesquisa.


Conclusões / Considerações finais
Partindo dessa experiência, podemos indicar que nas pesquisas de ATC deve se repensar o lugar dos sujeitos participantes, pois na maioria dessas pesquisas na área da saúde mental identificamos que os participantes foram envolvidos como objetos ao invés de sujeitos, privilegiando-se uma abordagem ética.
Instituir uma dimensão participante implica uma relação de reciprocidade entre sujeito e objeto e uma relação dialética entre teoria e prática, na qual a figura do pesquisador não desaparece, mas se presta para promover a articulação com outros sujeitos, que passam a contribuir no processo de construção do conhecimento. Nas pesquisas de ATC, acreditamos que isto seria possível, com uma participação maior da população alvo em todas as etapas da pesquisa, sendo essencial uma abordagem êmica-ética. Isto, abre o caminho para pensar a relação pesquisadores-pesquisados de uma forma mais horizontal nos estudos de ATC.


Referências
1. Gorenstein C, Wang Y. Fundamentos de mensuração em saúde mental. In: Gorenstein C, Wang Y, Hungerbühler I, editors. Instrumentos de avaliação em saúde mental. Porto Alegre: Artmed; 2016. p. 1–52.
2. Patanella D, Pavelka LC, Marrs H, Noggle CA, Levin SE, Sander J, et al. Cross-Cultural Research. In: Goldstein S, Naglieri JA, editors. Encyclopedia of Child Behavior and Development. Boston, MA: Springer US; 2011. p. 434–8.
3. Matías-Carrelo LE, Chávez LM, Negrón G, Canino G, Aguilar-Gaxiola S, Hoppe S. The Spanish translation and cultural adaptation of five mental health outcome measures. Cult Med Psychiatry. 2003;27(3):291–313.
4. Alegria M, Vila D, Woo M, Canino G, Takeuchi D, Vera M, et al. Cultural relevance and equivalence in the NLAAS instrument: integrating etic and emic in the development of cross-cultural measures for a psychiatric epidemiology and services study of Latinos. Int J Methods Psychiatr Res. 2004;13(4):270–88.

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