Comunicação Oral

23/03/2021 - 14:15 - 15:45
CC09 - Eixo 8 - Gestão do cuidado e desigualdades na atenção primária à saúde

34300 - CUIDADO PROFISSIONAL ÀS PESSOAS ATINGIDAS POR ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL: PMAQ E REGISTROS EM PRONTUÁRIOS COMO FERRAMENTAS DE ANÁLISE
NATHÁLIA SIGILLÓ CARDOSO - FMRP USP, NAYARA GOMES BRAGA - FMRP USP, MARIA DO CARMO GUIMARÃES CACCIA BAVA - FMRP USP


Resumo
O cuidado profissional em saúde envolve, além da competência técnica, ética profissional e habilidade em criar vínculos com os enfermos. As doenças e/ou condições crônicas, como o acidente vascular cerebral (AVC), por exigirem cuidado prolongado, têm a integralidade como princípio vital para seu acompanhamento. A atenção primária à saúde (APS) tem o papel de ordenar o cuidado nas redes e linhas que compõem o Sistema Único de Saúde (SUS). Diante de tal importância, o Programa de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ) foi desenvolvido para qualificação da APS, com avaliações de aspectos estruturais e processuais. Análises de registros em prontuários de APS e durante a hospitalização pelo AVC, somados a dados retirados de entrevistas do PMAQ com usuários do SUS do mesmo município, criaram um panorama ampliado do cuidado profissional, o qual demonstrou baixo vínculo entre profissionais e usuários, em sua maioria com baixa escolaridade. Os registros dos prontuários se mostraram insuficientes e pouco legíveis. Apesar de avanços na ciência, o cuidado ainda é fragmentado. A APS, para exercer seu papel essencial no cuidado, necessita investimentos financeiros que amplifiquem sua capacidade técnica e de gestão. O respeito às singularidades, e as noções de determinantes sociais e intersetorialidade também poderiam propiciar melhorias no cuidado profissional em saúde.

Introdução
O cuidado profissional em saúde deve ser considerado como parte da dimensão existencial, em que profissionais e usuários criam vínculos que ultrapassam o desfecho técnico. Todavia, o SUS, mesmo com seus princípios humanizadores, tem sido operado a partir de gestões verticalizadas, com racionalização de recursos, fragmentação e perda de vínculos relacionais, os quais são imprescindíveis no cuidado às condições crônicas. Dentre essas, o AVC é a segunda causa mundial de morte e a primeira de incapacidade, e poderia ser minimizado por cuidados voltados a promoção de saúde e prevenção de fatores de risco. A APS é a coordenadora do cuidado oferecido nas redes assistenciais do SUS, que buscam a continuidade da atenção em todos os seus pontos de assistência. Considerando-se a importância da APS, o PMAQ, de iniciativa ministerial, avaliou em três ciclos (2011 a 2018), unidades de APS que aderiram ao programa, enfocando, dentre outras, ações de controle da hipertensão arterial, fator de risco do AVC, com objetivo de qualificá-las.

Objetivos
O presente trabalho deriva de um projeto de pesquisa mais amplo. O objetivo deste foi avaliar o cuidado profissional oferecido às pessoas atingidas pelo AVC, a partir de dados obtidos em registros de prontuários (hospitalares e das unidades de APS) e do PMAQ.

Metodologia
Delineou-se um estudo descritivo, retrospectivo, com abordagens quali e quantitativa, que envolveu três momentos: 1. coleta nos registros no único hospital do município, dos usuários hospitalizados por AVC em três meses de movimentação típica (total de 19 pessoas); 2. avaliação dos registros dessas mesmas pessoas em suas unidades de APS de referência prévias ao AVC; 3. dados secundários do PMAQ, 3º ciclo, voltado a usuários entrevistados no mesmo município (total de 12 entrevistados).

Resultados e Discussão
Os registros dos prontuários eram escassos e ofereceram pouca compreensão da caligrafia. Em relação aos hospitalares, não foram encontrados registros sobre acompanhamento de saúde prévio. Dados referentes à APS (unidades e PMAQ) demonstraram que 70% das pessoas utilizavam a unidade de referência oficialmente definida e 75% tinham baixa escolaridade. A regionalização favoreceu o acesso ao cuidado, mas foi insuficiente para criar vínculos e orientações de prevenção ao AVC. O absenteísmo nas unidades foi predominante e identificado nos prontuários por um carimbo de ausência, porém não foram encontrados registros referentes a contatos com usuários após as faltas. O PMAQ mostrou que três entrevistados foram contatados após faltar ou interromper o tratamento. A baixa adesão é multifatorial e pode se associar a baixos níveis escolares e socioeconômicos; terapêuticas complexas; insatisfação com os serviços; entre outros. Investigar o absenteísmo é parte do cuidado, pois além de detectar singularidades que poderiam ser abordadas pelos profissionais, as dificuldades socioeconômicas também são passíveis de cuidado, por meio de acolhimento, políticas assistenciais e trabalho intersetorial.

Conclusões / Considerações finais
Os dados demonstraram falhas no cuidado profissional em saúde e perda da dimensão cuidadora, apesar de avanços científicos. Ações para aprimorar os registros nos prontuários, em relação a legibilidade e suficiência de dados, são fundamentais, para que o cuidado interdisciplinar e multiprofissional em AVC e demais condições crônicas seja integral. Há necessidade de se operar de forma mais ampliada o conceito de saúde na sociedade, com adoção de estratégias de cuidado para além da dimensão clínica das doenças, contemplando os inúmeros determinantes sociais que atingem diferentemente as pessoas. É imperativa a efetivação da saúde pública sob a perspectiva não-mercadológica e como direito universal. As práticas de cuidado profissional devem ser pautadas por princípios humanizadores que priorizem o cuidado a partir das necessidades singulares dos cidadãos usuários do SUS.

Referências
AYRES, J.R de C.M. Cuidado: trabalho, interação e saber nas práticas de saúde. Rev baiana enferm, v. 31, n.1, p.1-4, 2017.
MENDES, E.V. O Cuidado das Condições Crônicas na atenção primária a saúde: o imperativo da consolidação da estratégia da saúde da família. Organização Pan-Americana da Saúde, 2012.
World Health Organization. WHO STEPS Stroke Manual: The WHO STEPwise approach to stroke surveillance, 2006.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ) Terceiro Ciclo, Ministério da Saúde, 2017.
FERREIRA, L.L. et al. Análise dos registros de técnicos de enfermagem e enfermeiros em prontuários. Rev. Bras. Enferm, v.73, n.2, p. 1-6, 2020.
PATRÍCIO, C. M. et al. O prontuário eletrônico do paciente no sistema de saúde brasileiro: uma realidade para os médicos? Scientia Medica, Porto Alegre, v. 21, n. 3, p. 121-31, 2011.

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