Comunicação Oral

24/03/2021 - 11:15 - 12:45
CC19 - Eixo 4.1 - Atenção Básica, gestão da clínica e integralidade

32847 - APRIMORANDO A RESPOSTA DA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER EM PAÍSES DE RENDA MÉDIA E BAIXA - O CASO DE SP/BRASIL
STEPHANIE PEREIRA - FMUSP, JANAÍNA MARQUES DE AGUIAR - FMUSP, CECÍLIA GUIDA VIEIRA GRAGLIA - FMUSP, RENATA GRANUSSO BONIN - FMUSP, YURI NISHIJIMA AZEREDO - FMUSP, LILIA BLIMA SCHRAIBER - FMUSP, ANA FLÁVIA PIRES LUCAS D'OLIVEIRA - FMUSP


Resumo
Trata-se dos resultados de pesquisa multicêntrica realizada no Brasil e em territórios ocupados da Palestina coordenado pela Universidade de Bristol no Reino Unido. O objetivo foi desenvolver e avaliar uma intervenção em serviços de atenção primária para a identificação e manejo dos casos de violência doméstica contra a mulher. A intervenção realizada foi baseada no modelo inglês IRIS e no brasileiro CONFAD e constitui-se de treinamento dos profissionais, distribuição de material de apoio e supervisões nos serviços. Realizaram-se entrevistas com os profissionais e gerentes locais antes e depois da intervenção. Concluiu-se que compreender a violência doméstica sem julgamentos morais e em uma perspectiva de gênero e direitos humanos pode apoiar o trabalho com todas as formas de violência, incluindo o trabalho com homens, crianças e idosos, o que se conquistou pelo treinamento das equipes. Mostrou-se também necessário o treinamento de profissionais que, no próprio serviço, são a retaguarda para apoiar as equipes, a identificação e o referenciamento das mulheres. Além disso, a gerência dos serviços e a rede intersetorial mostraram-se fundamentais para o cuidado integral dos casos, assim como a realização de reuniões periódicas para discussão dos casos.

Introdução
A violência contra a mulher (VCM) é um obstáculo para atingir os recém acordados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em especial o quinto, que se relaciona com igualdade de gênero, além de ser também uma violação de direitos humanos que prejudica a saúde e o bem estar de mulheres e seus filhos. Na busca por cuidados, a Atenção Primária à Saúde (APS) é um dos principais serviços aos quais essas mulheres recorrem. Violência por parceiro íntimo (VPI) é a forma mais comum de VCM e o segundo maior fator de risco para a perda de anos de vida saudável globalmente para mulheres de 20 a 24 anos.
Realizou-se pesquisa multicêntrica no Brasil/Município de São Paulo e nos territórios ocupados da Palestina, coordenada pela Universidade de Bristol no Reino Unido e pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo no Brasil. Nesse trabalho apresentaremos as mudanças em termos da identificação, acolhimento e referenciamento de casos de mulheres em situação de violência doméstica após intervenção para superação dos obstáculos identificados previamente nos serviços.

Objetivos
1. Conhecer os obstáculos e facilitadores para serviços de atenção primária no enfrentamento da violência doméstica contra as mulheres
2. Desenvolver e avaliar uma intervenção em serviços de atenção primária para a identificação e manejo dos casos de violência doméstica contra a mulher

Metodologia
O estudo consistiu-se de:
1. Levantamento de obstáculos e facilitadores para identificação e cuidado de mulheres em situação de violência doméstica (VD), triangulando dados de diferentes fontes: levantamento bibliográfico; análise de entrevistas de mulheres usuárias; análise temática de reunião com representantes das redes de serviços à VCM; e entrevistas semiestruturadas com profissionais e gestores das UBS. Observou-se as UBS quanto a seu funcionamento e as relações entre profissionais e gerência da unidade.
2. Desenvolvimento e Aplicação de intervenção baseada no modelo inglês IRIS e no brasileiro CONFAD; entrevistas semiestruturadas 6 meses após a intervenção com profissionais e gestores dos serviços; distribuição de material educativo para profissionais; acompanhamento das discussões dos casos por seis meses após o treinamento. Entrevistas após treinamento para identificar impactos da intervenção nos serviços.
Após leitura exaustiva do material foi realizada análise temática.

Resultados e Discussão
Foram treinados 99 profissionais em 2 sessões, mas a maioria participou apenas de uma. Nas entrevistas pré-intervenção, as dificuldades relatadas eram: falta de tempo para acolher o caso, medo de sofrer represálias e piorar a situação da mulher, ausência do relato espontâneo, dificuldade de perguntar ativamente e frustração com as escolhas das mulheres, consoante com o encontrado na revisão bibliográfica. A intervenção se dava via aconselhamentos pessoais, motivacionais ou escuta da queixa como um desabafo.
A intervenção incentivou a capacitação de profissionais de retaguarda para o suporte ao cuidado dos casos. Após o treinamento, relatou-se maior segurança na abordagem; identificação e condução de casos mesmo quando não havia relato espontâneo; maior confiança para garantir a segurança pessoal e da mulher; aumento no repertório de ações e reconhecimento da rede intersetorial a partir da compreensão de que todos devem ir além das formas de assistência tradicionais visando o cuidado integral.
As observações revelam maior impacto do treinamento quando a gerência se mostrou encorajadora desse tipo de atendimento, garantindo reuniões, acompanhando e avaliando as atividades.

Conclusões / Considerações finais
1. Reuniões gerais e apoio da gestão local e regional são importantes para a divulgação do trabalho, informações e discussão dos casos.
2. É necessário que a equipe de NPV seja bem treinada e supervisionada. O NPV apoia a identificação em todo o serviço, porque se os profissionais sabem que poderão encaminhar os casos e ter com quem discutir sentem menos medo e consideram possível realizar o atendimento de casos de violência no tempo previsto para as consultas.
3. A rede intersetorial é chave, mas é pouco conhecida e há muita desconfiança a respeito. Conhecer os serviços da rede e ter mais proximidade com eles é crucial.
4. Compreender a violência doméstica sem julgamentos morais e em uma perspectiva de gênero e direitos humanos pode apoiar o trabalho com todas as formas de violência, incluindo o trabalho com homens, crianças e idosos.

Referências
1. Mokdad AH, Forouzanfar MH, Daoud F, Mokdad AA, El Bcheraoui C, Moradi-Lakeh M, et al. Global burden of diseases, injuries, and risk factors for young people's health during 1990-2013: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2013. Lancet. 2016, 11; 387(10036):2383-401
2. Feder G, Davies RA, Baird K, Dunne D, Eldridge S, Griffiths C, et al. Identification and Referral to Improve Safety (IEAS) of women experiencing domestic violence with a primary care training and support programme: a cluster randomised controlled trial. Lancet. 2011, 19;378(9805):1788-95.
3. D'Oliveira, AFPL; Schraiber, LB; Hanada, H; Durand, J. Atenção integral à saúde de mulheres em situação de violência de gênero: uma alternativa para a atenção primária em saúde. Ciênc. Saúde Coletiva. 2009, 14(4):1037-1050.

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